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Protestos cobram revisão de decisão do TJMG em caso de estupro de vulnerável

CNJ abre Pedido de Providências para apurar absolvição de homem acusado de manter “casamento” com menina de 12 anos

Redação
Por: Redação
23/02/2026 às 10h18
Protestos cobram revisão de decisão do TJMG em caso de estupro de vulnerável
Foto: Vitor Brandão/ Itatiaia

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais foi alvo de protestos na tarde deste domingo (22), após a repercussão da decisão que absolveu um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos.

Segundo o entendimento da Justiça, o acusado mantinha um “casamento” com a garota, relacionamento que teria sido autorizado pelos pais. A mãe da vítima, que também respondia no processo, igualmente foi absolvida.

Imagens do ato, realizado em frente à sede do tribunal, mostram manifestantes — em sua maioria mulheres — com cartazes e ursos de pelúcia. Uma das faixas trazia a mensagem: “criança não é esposa”. O caso ganhou ampla repercussão após divulgação de informações pelo portal jurídico Consultor Jurídico (Conjur), que destacou que a decisão foi fundamentada na existência de um suposto “vínculo afetivo” entre o homem e a menina.

CNJ determina apuração

Diante da repercussão, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou a abertura de um Pedido de Providências para apurar a conduta relacionada à decisão.

O ministro Mauro Campbell Marques estabeleceu prazo de cinco dias para que o tribunal e o desembargador Magid Nauef Láuar prestem informações iniciais. Também foi determinada a inclusão formal do TJMG no procedimento, para apresentação de esclarecimentos.

Entenda o caso

O TJMG decidiu absolver o homem sob o entendimento de que ele mantinha um “casamento” com a adolescente de 12 anos, o que fundamentou o afastamento da acusação de estupro de vulnerável. A decisão gerou críticas e mobilização social, além de questionamentos sobre a interpretação jurídica adotada no julgamento.

Veja a nota do MPMG:

"O ordenamento jurídico pátrio e a jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça — consubstanciada na Súmula 593 e no Tema 918 — estabelecem a presunção absoluta de vulnerabilidade para crianças e adolescentes com menos de 14 (quatorze) anos. Tal diretriz normativa visa resguardar o desenvolvimento saudável e a dignidade sexual dessa população, tratando-os como bens jurídicos indisponíveis, que se sobrepõem a qualquer interpretação fundada em suposto consentimento da vítima ou anuência familiar.

Após a identificação dos aspectos jurídicos passíveis de impugnação pela via recursal adequada, o MPMG, por meio de sua Procuradoria de Justiça com atuação nos Tribunais Superiores (PJTS), adotará as providências processuais cabíveis, em estrita observância aos parâmetros estabelecidos pela lei e pela jurisprudência das instâncias superiores.

No plano da proteção integral, o MPMG promoveu articulações com a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (SEDESE) para a adoção das medidas necessárias à proteção da vítima, interrompendo ciclos que possam comprometer sua plena formação e autodeterminação futura — prioridade absoluta desta Instituição.

O CAODCA promoverá, ainda, ação de alcance estadual voltada à discussão da exploração sexual de crianças e adolescentes junto aos integrantes da rede de proteção, visando ao fortalecimento de conceitos imprescindíveis ao resguardo dos direitos da população com menos de 18 (dezoito) anos.”

Já o MDHC (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania) afirmou que o Brasil adota a lógica da proteção integral de crianças e adolescentes, segundo a Constituição Federal e o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

A pasta destacou ainda que, quando a família não assegura essa proteção, cabe ao Estado e à sociedade zelar pelos direitos da criança, não sendo admissível que a anuência familiar ou a autodeclaração de vínculo conjugal sejam usadas para relativizar violações. 

Veja a nota do MDHC da íntegra:

"Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), por meio da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (SNDCA), informa: O Brasil adota a lógica da proteção integral de crianças e adolescentes, segundo a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Quando a família não assegura essa proteção — especialmente em casos de violência sexual —, cabe ao Estado e à sociedade, incluindo os três Poderes, zelar pelos direitos da criança, não sendo admissível que a anuência familiar ou a autodeclaração de vínculo conjugal sejam usadas para relativizar violações.

O país repudia o casamento infantil, prática que constitui grave violação de direitos humanos e aprofunda desigualdades de gênero, raça e classe. Em 2022, mais de 34 mil crianças de 10 a 14 anos viviam em uniões conjugais no Brasil, majoritariamente meninas, pretas ou pardas, concentradas em regiões historicamente mais vulnerabilizadas.

O Brasil assumiu compromissos internacionais para eliminar essa prática, incluindo recomendações recentes do Comitê da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW) para que a idade mínima para o casamento seja fixada em 18 anos, sem exceções. Decisões judiciais, inclusive no âmbito dos Tribunais de Justiça, devem estar alinhadas a esse marco normativo, garantindo que nenhuma interpretação fragilize a proteção integral de crianças e adolescentes."

Pelas redes sociais, a deputada federal de Minas Gerais Erika Hilton (PSOL) afirmou que está denunciando a decisão da Justiça de Minas Gerais ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Segundo ela, a decisão “liberou a pedofilia”. 

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL), que também é de Minas Gerais, foi outro a se manifestar criticando a decisão. “Não importa se consentiu, não importa se já teve outros relacionamentos, não importa se ela diz que gosta dele. A lei é objetiva”, declarou, acrescentando que a decisão representa uma normalização do abuso. 

Em nota à CNN Brasil, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais afirmou que o processo em questão tramita em segredo de justiça e que não se manifestará a respeito.

Fonte: CNN

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